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SETEMBRO AMARELO
 
Camila Appel
 
Setembro amarelo: mês de conscientização do suicídio
POR CAMILA APPEL
Onze da manhã. Ele entra no Fórum Trabalhista de São Paulo com o filho de quatro anos no colo. Sobe o elevador, senta no beiral do prédio e de lá ele salta. O filho preso nos braços até o impacto do chão afastá-los para sempre. No mesmo dia, um homem esfaqueia a mulher, arremessa os dois filhos pequenos do 18° andar de seu prédio e logo em seguida se joga. “Está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante”, ele diz numa carta. Essas cenas são de embrulhar qualquer estômago. Podia ser ficção mas infelizmente não é. Aconteceram no dia 29 de agosto deste ano.
Setembro é o mês amarelo, um mês dedicado a campanhas de prevenção do suicídio. Alguns veículos de comunicação divulgam eventos e depoimentos. Outros se calam. Faz parte de uma cultura de não falar muito sobre o assunto, que ocorre devido ao tabu em torno do tema e do medo do tal Efeito Werther. Esse é o nome dado ao efeito do suicídio por imitação. Um potencial suicida buscaria inspiração em casos divulgados pela imprensa, principalmente relacionado a celebridades. Claro que uma cobertura sensacionalista do suicídio e a divulgação de alguns detalhes é desnecessária, mas por outro lado, não podemos calar perante um problema de saúde pública mundial.
Só uma curiosidade, o nome do efeito é inspirado no livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe. Na época de seu lançamento, provocou uma onda de suicídios de jovens que imitaram o protagonista do livro, o jovem Werther, que se mata por causa de um amor frustrado.
A constatação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de que o suicídio é possível de ser prevenido nos tira de uma posição conformista e nos impulsiona a agir. Não dá para buscar consolo em frases como: “quem quiser morrer vai acabar conseguindo, por isso não há nada que se possa fazer”. Os estudos e cartilhas tocam em um ponto em comum: a importância da escuta. Alguns potenciais suicidas dizem ter desistido de morrer porque foram ouvidos. Parece simples, mas é bem complexo. Porque não estamos falando de uma conversa de bar. Escutar um potencial suicida é ter empatia por alguém que não vê saídas. Por alguém que causa mal estar em sua própria família, que traz dor a todos ao redor e vê no sentimento de culpa mais uma justificativa para sua morte.
Escutar um potencial suicida é ter uma conversa franca, sem pisar em ovos nem usar eufemismos. Não é fingir que está tudo bem. Porque não está. Compreender uma dor é estar presente sem julgamentos, permitir que o outro fale sem sentir-se em um interrogatório. Muita vezes, aquela pessoa não quer morrer. Ela só quer que a dor vá embora. Só que ela não vê saída e morrer parece ser o melhor que lhe resta fazer. Normalmente, ela não quer magoar os familiares, causar traumas, ele quer justamente deixar de ser um estorvo.
Há também o que é chamado de “posvenção do suicídio”. É o tratamento dos que se autodenominam “sobreviventes do suicídio”. São os familiares e amigos que buscam alguma explicação , qualquer justificativa que ajude a acalmar a dor e a culpa. Há grupos de apoios oferecidos pelo CVV (Centro de Valorização da Vida) e o Instituto Vita Alere.
Matéria recente de Claudia Collucci na Folha diz haver relação entre o aumento da taxa de suicídio e as crises econômicas. Não é de se espantar que estejam relacionados, mas resolver a crise econômica não significa resolver o aumento do suicídio. Pois as taxas aumentam mesmo em países que não estão imersos em uma crise como a nossa.
Podemos e devemos fazer alguma coisa. Alguém próximo a você pode estar numa situação “sem saída”, mesmo que o sorriso no rosto disfarce seus planos para não acordar no dia seguinte.
Os dados são alarmantes. Uma cartilha sobre orientação a conselheiros da OMS diz que um maior número de pessoas comete suicídio anualmente do que as que morrem em todos os conflitos mundiais combinados. Citando dados do Ministério da Saúde e da própria OMS, o CVV diz que pelo menos 32 brasileiros se matam por dia, taxa superior às vítimas de AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Desses 32 casos, 28 poderiam ter sido prevenidos. No mundo, estima-se que uma pessoa se mata a cada 40 segundos.
O CVV criou o site SetembroAmarelo reunindo informações sobre as atividades do mês, com maior atenção ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, dia 10 de setembro.

 
 
 
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